E a Copa da Saúde?

às 17:12

Você está agora em 2014, sentado tomando uma Budweiser em um dos assentos da Fonte Nova. O novo estádio é lindo. Conseguiu ingressos para as quartas de final, hein? Brasil x Argentina. Se ligue. Já são 40 do segundo tempo e a Seleção tá tomando 1 x 0, gol de Messi. Os minutos passam e nada de empate. Desespero. Meu Deus, o juiz vai apitar. Ele vai apitar! Não, não, não! Apitou. É o fim do mundo? Que nada! Daqui a quatro anos tem mais.

Agora você está sentado no Roberto Santos. Não o estádio metropolitano, me refiro à emergência do hospital, aquele que fica ali no Cabula. Seu pai teve um AVC hemorrágico e precisa de atendimento. Cadê o médico? Cadê o enfermeiro? Cadê a maca? Cadê a UTI? Só aparece uma cadeira de rodas com um dos apoios dos pés quebrado. Aí sim é desespero, amigo. Se o juiz lá de cima resolve apitar, não tem essa de daqui a quatro anos, não. Dê seus pulos e arrume um jeito de virar esse jogo.

Vivendo na pele o que vivi, difícil não fazer essa comparação, admito, simplista demais. Naquele momento, na lamentável emergência do Robertão, tentei não imaginar quantos pacotes de gaze – tão em falta ali – seriam comprados com o dinheiro de um vergalhão de aço da arena multiuso. Essa é uma visão que cai na vala comum, eu sei.

A Copa do Mundo, a Olimpíada e o esporte têm a sua importância. As verbas destinadas para um e para outro são separadas. E ambos precisam de aporte financeiro. Acontece que a fonte é a mesma. Por isso, impossível não comparar (aí sim acredito que valha a comparação) as gestões do dinheiro público, as boas e más vontades, as competências, enfim, as prioridades.

Para aprovar Lei da Copa no Congresso é uma correria. Para tirar do papel um metrô que já tá aí há 12 anos, outro desespero. Para botar em prática o PDDU, faz nas coxas mesmo. Se vai rolar dinheiro pesado, arruma-se uma força-tarefa. Tudo bem, a Fifa não pode esperar. Mas a vida espera muito menos. Aquela emergência precisa de socorro para ontem. Serve até uma ajudinha a toque de caixa mesmo. Vamos lá, pessoal!

Se que Copa do Mundo gera renda, emprego, visibilidade, turismo. Mas sei também que se trata de um grande negócio. Esse pessoal que fica nos gabinetes tem que entender uma coisa: o que não é negócio também precisa de atenção. Nem mais, nem menos. A mesma já é suficiente.

 Afinal de contas, nesse caso também é uma troca. Ou dinheiro de imposto não é dinheiro? Tem competência para fazer Copa do Mundo e mantém aquele açougue no Roberto Santos? Pessoas sem assistência estão morrendo por minuto ali. As equipes médicas não dão conta. Trabalham além do limite. Fica a pergunta: quando vamos fazer a Copa da saúde?

 Por: Alexandre Lyrio

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