Ginastas brasileiros revelam ter sofrido abusos sexuais de ex-técnico

Ao todo, 42 atletas relataram ter sofrido abusos do ex-técnico da seleção brasileira Fernando de Carvalho Lopes

Fernando de Carvalho Lopes (Foto: Ricardo Bufolin)

Uma reportagem do programa “Fantástico”, da TV Globo, em parceria com o Globoesporte.com, publicada na noite deste domingo (29), revelou que 42 ginastas brasileiros alegaram ter sofrido abusos sexuais, físicos e morais cometidos pelo ex-técnico da seleção brasileira Fernando de Carvalho Lopes. Entre as vítimas, está Petrix Barbosa, que foi medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos de 2011.

Fernando de Carvalho Lopes trabalhou no Mesc (Movimento de Expansão Social Católica), um clube privado que fica em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, e por dois anos integrou a comissão técnica da seleção brasileira, tendo treinado nomes como Diego Hypolito e Caio Souza. Ele foi afastado da equipe olímpica um mês antes dos Jogos Rio 2016, logo após ter sido denunciado por um menor de idade.

De acordo com a emissora, Fernando de Carvalho teria praticado crimes de assédio moral, agressão física e abuso sexual por quinze anos, uma vez que o primeiro relato é de 2001 e o último é de 2016.

“O que mais fazia comigo era todo dia tentar molestar, esse sufoco, essa pressão psicológica para um moleque de 10 anos. Banho junto, espiar. Dormir na cama comigo quando eu não queria. Já acordei com ele, não sei quantas vezes, com a mão na minha calça e eu conseguia tirar e dormir porque eu não ficava parado. Teve gente que não conseguiu ter as mesmas reações que eu. E eu não quero que aconteça mais”, relatou Petrix Barbosa, que fez questão de mostrar seu rosto à reportagem do Globo Esporte.

“Eu era o queridinho. Ele tinha uma paixão por mim que eu nunca soube explicar. E todos viam e sabiam disso”, acrescentou Petrix, que também começou no Mesc e na época tinha entre 12 e 13 anos de idade.

“Começamos a ginástica juntos ali. Fernando foi nosso primeiro treinador, e o Mesc meu primeiro clube, e nós nos tornamos imbatíveis na base. Ganhávamos tudo”, lembrou ele, antes de voltar a falar dos abusos.

“Todos os dias era uma briga porque ele dizia que esbarrava no nosso pênis. E eu falava… não existe esbarrar, p… Mais uma vez? Não é possível. Eu sabia que era errado, e aí, cada vez mais, ele foi buscando maneiras de entrar nessa situação”, revelou.

Ronald Cesar, ex-ginasta que trabalha atualmente como treinador de cheerleaders em Brasília, também revelou abusos de Fernando.

“Sou de Brasília. Aos oito anos entrei para uma equipe de ginástica e treinava de segunda a sábado. Fernando me chamou para um teste. Eu comecei a treinar com ele e fui para São Bernardo. Eu morava numa república de atletas, a Casa Verde, que tinha vários atletas de Brasília e de outros estados. (…) Eu tinha 15 anos. E a visão que a gente tinha é que ele treinava os melhores, que ele tinha toda essa bagagem de seleção brasileira, treinar atletas muito bons como o Sérgio Sasaki, o Diego Hypolito (…). Ele pegava no nosso pênis, na nossa bunda, ficava pegando nesses lugares que não precisa”, contou.

Voltando a Petrix, a matéria revela que ele ficou traumatizado quando viu Fernando de Carvalho na seleção brasileira, tanto é que seu rendimento caiu e ele não conseguiu integrar a seleção que disputou os Jogos do Rio. Depois disso, ele decidiu se mudar para Miami, nos Estados Unidos, onde hoje treina com o cubano técnico Yin Alvarez, campeão olímpico.

“Eu ainda vou conquistar a minha medalha olímpica. É um sonho e ninguém vai tirar isso de mim”, prometeu Petrix, que garantiu ir à polícia quando voltar ao Brasil.

INVESTIGAÇÕES

Há um inquérito na delegacia de São Bernardo do Campo há quase dois anos. O primeiro depoimento dado à Polícia Civil ocorreu em 8 de junho de 2016. A ação corre em sigilo de Justiça, entre um vai e vem da 2ª Vara Criminal do Ministério Público SP para a Delegacia da Mulher, da Criança e do Adolescente (DDM), de São Bernardo do Campo, e não tem previsão de ser finalizada.

Ao todo, os órgãos responsáveis já ouviram 15 testemunhas e precisam ouvir mais 13 pessoas citadas no processo, o que causa ainda mais demora na conclusão.

O termo que se enquadra a ação está no artigo 217 do Código Penal, por “ter conjunção carnal ou praticar outro ato libidinoso com menor de 14 (catorze) anos”. A pena é de oito a 15 anos de prisão para cada vítima citada no inquérito.

Outros depoimentos:

Vítima A

“Todos os atletas morriam de medo dele, inclusive eu, e na época eu não tive coragem de falar nada”.

Vítima B

“Teve uma competição que a gente foi. E na madrugada eu acordei porque tava com sede. Acordei outro atleta para ir comigo porque tinha medo. Era escuro. E quando eu levantei, dei de cara com a cama e o Fernando deitado com o Petrix. Essa cena nunca vai sair da minha mente. Nunca”.

“Quando a gente caia da barra, ele puxava pelo pescoço e fazia a gente subir de novo assim. “Sobe e faz de novo”. pegava a gente pelo pescoço e arremessava. (…) Tinha medo dele, com certeza. (…) Foram dos 10 aos 15 (anos) frequentemente sendo tocado nos treinamentos, sendo visto nos banhos. (…) Não é fácil. Hoje, eu virar e falar “olha, fui abusado por um cara que era meu treinador”. Quem aceita isso? Graças a Deus minha noiva aceita super numa boa. Ela me apoia muito a dar a cara a tapa.”

Vítima C

“O Fernando mandava a gente tomar um banho num horário que ele podia entrar no banheiro. Se você ficasse de costas para ele, quando você estivesse tomando banho, ele falava que queria conversar com você. E você, de costas, falava que ele podia falar. Mas ele falava: “Não, você tem de virar para frente”. Ele ficava olhando nossas partes íntimas. E ficava pedindo para tocar no nosso pênis.”

“Ele pedia pra gente ir na salinha dele. (…) Só podia entrar lá com ele. E lá ele ficava perguntando se a gente já se masturbava, pedia para ficar fazendo na frente dele. E não podia reclamar. Porque dizia que a gente não ajudava. Dizia que ele precisava saber disso, precisava ver as coisas pra poder montar um treino pra gente, entendeu?”

Vítima D

“Ele colocava atletas de castigo, de frente para a parede, como se fosse um tipo de repressão. De apertões no braço a beliscões a empurrões a arremessar objetos nos atletas. (…) Teve um episódio que ele arremessou um rolo de esparadrapo, duro. Outra vez, arremessou um taquinho, pedaço de madeira. (…) Era uma pressão psicológica que eu achava sempre desnecessária. De pequeno, das primeiras lembranças, era o que mais me incomodava. Às vezes, ele pegava um cabo de vassoura. Quando não estendia o joelho, ele batia.”

O OUTRO LADO

Fernando de Carvalho se defendeu das acusações e afirmou que vai procurar reparação judicial.

“Nunca fui um técnico legal, sempre fui muito rigoroso, eu me achava mais do que um técnico e meu erro pode ter sido confundir o papel de treinador com o de um pai, um amigo. Eu não tenho o que falar (sobre as acusações). Eles vão ter que provar na Justiça. Estou com a minha consciência tranquila”, disse.

 
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