Morre primeiro homem trans a ser operado no Brasil

Em setembro, Nery — que já vinha lutando contra o câncer há algum tempo — foi informado de que o câncer no pulmão havia atingido o cérebro.

por HuffPost Brasil, Andréa Martinelli

João W. Nery, psicólogo, escritor, ativista e considerado o 1º homem trans a ser operado no Brasil, morreu nesta sexta-feira (26), aos 68 anos. Internado desde setembro, ele lutava contra um câncer de pulmão. A notícia foi confirmada pelo IBRAT (Instituto Brasileiro de Transmasculinidade).

“Mesmo que estejamos tristes, pois sabemos do tamanho do amor que temos por João, sabemos agora que o sofrimento dele se findou. A nós, fica o compromisso e a responsabilidade de não deixarmos que as lembranças se percam e que mantenhamos João vivo em nós e nas nossas histórias”, diz nota divulgada pelo instituto. “Continuaremos o que ele começou”, finaliza.

Foto: Divulgação

Em setembro, Nery — que já vinha lutando contra o câncer há algum tempo — foi informado de que o câncer no pulmão havia atingido o cérebro. Naquele momento, o ativista divulgou um texto em suas redes sociais em que pediu para seus admiradores “seguissem com a defesa da causa transexual”.

“Continuem a nossa luta por nossos direitos, se unam, não oprimam os nosso irmãos oprimidos já por tanta transfobia e sofrimento. Basta saber quem é e que se sente do gênero masculino. Vamos nos respeitar, nos unir, nos fortalecer e, sobretudo, ensinar aos homens cis o que é ser homem sem medo do feminino”, escreveu à época.

Na mesma postagem, ele afirmou que, enquanto buscava a cura, também estava escrevendo um livro chamado Velhice Transviada e que pretendia terminá-lo e lançá-lo até o final deste ano. Em entrevista recente à Agência Brasil, ele falou sobre o projeto.

“A velhice na nossa cultura é a partir dos 60, mas se uma mulher trans, por exemplo, fez 50, ela já é uma sobrevivente. Já pode se considerar uma mulher velha. E não tem asilo para os trans velhos, não tem saúde específica para atendê-los. Eles muitas vezes não têm estudo e não têm casa para morar”, disse. Ainda não há informações sobre a publicação da obra.

Intelectual reconhecido, ele era fonte para jornalistas e pesquisadores. Sua militância o fez receber o título de doutor honoris causa pela UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul). Em 2017, a autora Gloria Perez consultou o ativista para criar o personagem Ivana (Carol Duarte), a jovem que se descobria trans e assumia a identidade sexual masculina com o nome Ivan na novela A Força do Querer.

“É claro que, da minha época para cá, houve um avanço muito grande, em função das passeatas, dos movimentos [sociais] e tal, e agora na mídia, por causa da novela [A Força do Querer]”, disse à época ao HuffPost Brasil.

Ano passado Nery também lançou o livro Viagem Solitária: Memórias de um Transexual, com o relato de sua vivência trans, e participou da coletânea Vidas Trans, ao lado de outros ativistas como Amara Moira e Tereza Brant e Márcia Rocha. Ele também participou do documentário Laerte-se, da Netflix, que conta a história de ativismo da cartunista Laerte.

Por conta de sua história e de seu ativismo, Nery foi homenageado pelos deputados Jean Wyllys (PSOL-RJ) e Erika Kokay (PT-DF) ao ter seu nome usado para batizar o projeto de lei 5.002/13, que propõe o direito à identidade de gênero, seja no tratamento conforme a pessoa trans pede ou no registro de seu nome social em documentos.

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